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Adultos tendem a morar com os pais, apesar de ganharem mais – Folha de São Paulo

Gerações mais novas estudaram mais, porém herdaram menos segurança econômica Mulheres e negros ainda não ultrapassaram a mediana da renda real dos brancos da geração anterior

Adultos tendem a morar com os pais, apesar de ganharem mais – Folha de São Paulo

Por Michael França

Pense em uma mãe de classe média que trabalhou toda a vida sem diploma universitário. Ela fez de tudo para que o filho estudasse. Incentivou da forma que pôde e comemorou cada conquista dele. O garoto chegou à universidade. Formou-se. E hoje, aos 30 anos, seu salário não proporciona aquilo que imaginava. Ele ainda mora com ela. Ela não entende o que deu errado. Ele também não.

Esse é um dos retratos de uma transformação geracional que discuti em um estudo que realizei com Daniel Duque e Fillipi Nascimento intitulado "Geração X versus millennials: quem são os grandes vencedores?".

Os millennials (geração geralmente definida como a dos nascidos de 1981 a 1996 e, no estudo, representada pelos nascidos de 1992 a 1994), estudaram mais do que qualquer geração anterior. Tiveram mais acesso ao ensino médio e à universidade. Cresceram em um país com inflação controlada e sem muitos dos choques que marcaram a juventude da geração X (no estudo, representada pelos nascidos de 1967 a 1969).

A geração X encontrou um país mais instável. Depois surfou um período de expansão econômica e de valorização do salário mínimo. Já os millennials chegaram ao mercado justamente em um momento de baixo crescimento. Eles fizeram o que a sociedade pediu que fizessem. Mesmo assim, encontraram um mercado de trabalho difícil e menos segurança econômica.

Perceba que existe quase um paradoxo nessa história. A geração que mais estudou foi justamente aquela que encontrou um mercado em que o diploma foi perdendo parte do seu valor.

Apesar disso, a mediana da renda real cresceu para todos os grupos de millennials analisados (figura 1). Contudo, também há uma permanência de uma ordem social antiga. Mesmo depois de uma geração inteira de expansão educacional, homens brancos da geração X ainda tinham renda superior à de homens negros, mulheres brancas e mulheres negras da geração seguinte.

Outro dado chama a atenção. Entre os millennials, diminuiu a proporção de jovens de renda mais alta morando sozinhos e com um imóvel próprio (figura 2). Muitos deles passaram a permanecer mais tempo na casa dos pais.

Os custos de moradia cresceram. Os jovens de classe alta conseguem usar esse tempo em casa como uma espécie de trampolim. Ficam mais tempo estudando, fazendo pós-graduação, aprendendo idiomas, viajando ou guardando dinheiro até se sentirem prontos para sair.

Já os jovens de baixa renda tendem a sair de casa antes porque a vida adulta chega mais cedo. Começam a trabalhar antes de seus colegas mais abastados, formam família mais jovens e costumam ir morar em lugares menos seguros.

Então, antes de terminar, volto àquela mãe e àquele filho da classe média. O que você acha que ela deve dizer a ele? Que estudar foi um erro? Acho que não. Acho que ela deveria dizer que ele fez tudo certo e que sente orgulho.

O problema está na promessa que foi vendida junto com o diploma. A educação continua abrindo portas, mas o que está do outro lado depende de políticas econômicas, da distribuição de renda e de um país que cresceu pouco quando essa geração chegou ao mercado.

Conteúdo publicado originalmente por Folha de São Paulo e reproduzido pela ABECIP para fins informativos.

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